sábado, 1 de setembro de 2012

Primeira Versão do texto de Hymes - Patricia

Unidades sociais Primeiro é preciso considerar a unidade social de análise. Para tal eu adoto a conhecida expressão comunidade de fala. Comunidade de fala. O termo fala é tomado aqui como substituto para todas as formas de linguagem, incluindo escrita, canto e linguagem assobiada, o rufar de tambores, o chamado de trombetas e coisas desse tipo. Comunidade de fala é um termo fundamental necessário, uma vez que propõe a base da descrição como uma entidade social e não linguística. Começa-se com um grupo social e consideram-se todas as variedades linguísticas nele presentes, ao invés de começar com uma variedade. No passado Bloomfiled (1993) e alguns outros reduziram a noção de comunidade de fala à noção de língua (variedade linguística). Aqueles falantes de uma mesma língua (ou a mesma primeira língua, ou língua padrão) eram definidos como membros de uma mesma comunidade linguística. Essa confusão ainda persiste, associada a uma medida quantitativa da frequência de interação como forma de descrever (em princípio) a mudança e a variação interna, assim como proposto de forma especulativa por Bloomfield. A presente abordagem requer uma definição que seja qualitativa e expressada em termos de normas para o uso da linguagem. Fica claro através do trabalho de Gumperz. Lobov, Barth e outros que o fator decisivo não é frequência de interação, mas a definição de situações em que a interação ocorre, particularmente a identificação (ou a falta dela) com outras. [A Sociolinguística aqui entra em contato com a substituição, na teoria retórica, da expressão e persuasão pela identificação como conceito chave (veja Burke 1950:19-37, 55-59).] Provisoriamente, uma comunidade de fala é definida como uma comunidade compartilhando regras para conduta e interpretação da fala e regras para a interpretação de pelo menos uma variedade linguística. Ambas as condições são necessárias. O compartilhamento de regras gramaticais (da variedade) não é suficiente. Deve haver pessoas cujo inglês eu possa identificar gramaticalmente, mas cujas mensagens me escapam. Eu posso desconhecer o que é considerado como uma sequência coerente, um pedido, um enunciado que requer uma resposta, um tópico essencial ou proibido, marcas de ênfase ou ironia, a duração normal de silêncio, o nível normal de voz, etc., e não ter meios metacomunicativos ou oportunidade para descobrir tais coisas. A diferença entre conhecimento de uma variedade e conhecimento de fala dificilmente se torna evidente em uma mesma comunidade, onde os dois são normalmente adquiridos conjuntamente. As comunidades, na verdade, frequentemente misturam o que o linguista distinguiria como gramaticalmente e como socialmente ou culturalmente aceitável. Entre os Cochiti do Novo Mexico J.R. Fox foi incapaz de identificar o possessivo da primeira pessoa do singular para “asas,” baseado no fato de que o falante, não sendo um pássaro, não poderia dizer “minhas asas” – simplesmente para se tornar a única pessoa em Cochiti capaz de dizê-lo, tendo em vista que “seu nome é Robin.” A não-identidade dos dois tipos de regras (ou normas) é mais provável de ser notada quando uma variedade compartilhada é uma segunda língua para uma ou ambas as partes. Enunciados que traduzem um ao outro gramaticalmente podem ser tomados erroneamente como tendo a mesma função na fala, da mesma forma que palavras que traduzem umas as outras podem ser tomadas como tendo a mesma função semântica. Pode haver influência ou interferência de substrato (Weinreinch, 1953) em uma como na outra. O linguista checo J. Neustupny cunhou o termo Sprechbond “área de fala” (paralelo ao Sprachbond, “área linguística”) para o fenômeno das regras de fala serem compartilhadas entre línguas contíguas. Assim, Checoslováquia (hoje, República Checa e Eslovaquia), Hungria, Áustria e sul da Alemanha podem vir a compartilhar normas como cumprimentos, tópicos aceitáveis, o que é dito em seguida em uma conversa, etc.

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