segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Primeira Versão de Luciana Fernandes - Em discussão...

O compartilhamento de regras de fala não é suficiente. Um checo que não sabe alemão pode pertencer ao mesmo Sprechbund, mas não à mesma comunidade de fala, como um austríaco. O campo de linguagem e o campo de fala (assim como a noção de campo social) pode ser definido como o alcance total de comunidades dentre as quais o conhecimento de variedades e regras de fala de uma pessoa possibilita/permite que ela circule de forma comunicável. Dentro do campo da fala deve ser destacada a rede de fala, as articulações específicas de pessoas através de variedades e regras de fala compartilhadas entre comunidades. Assim, no norte da Queenslândia, Austrália, diferentes falantes da mesma língua (por exemplo, Yir Yoront) podem ter redes bastante diferentes ao longo de diferentes circuitos geográficos, baseados em pertencimento a um clã, e envolvendo diferentes repertórios de multilingualismo. No estreito de Vitiaz, Nova Guiné, os habitantes da ilha Bilibili (um grupo de cerca de 200 a 250 comerciantes e fabricantes de panelas na baía de Astrolabe) tem, de forma coletiva, um conhecimento das línguas de todas as comunidades com as quais eles têm mantido relações econômicas, alguns dos homens conhecendo a língua de cada comunidade específica em que eles têm sido parceiros comerciais. Em resumo, a comunidade de fala de uma pessoa pode ser, efetivamente, uma única localidade ou parte desta; o campo de linguagem dela será delimitado por seu repertório de variedades; o campo de fala por seu repertório de padrões de fala. A rede de fala de uma pessoa é a união efetiva desses dois últimos. Parte do trabalho de definição é obviamente determinado aqui pela noção de comunidade, cujas dificuldades são evitadas/contornadas, como são as dificuldades em definir fronteiras entre variedades e entre padrões de fala. Concepções nativas/naturais/indígenas de fronteiras são apenas um fator ao definí-los, essencial, mas às vezes enganoso/confuso (um ponto destacado por Gumperz tendo como base seu trabalho na Índia central). Autoconcepções/concepções próprias, valores, estruturas funcionais, contiguidade, propósitos de interação, história política, todos podem ser fatores. Claramente, o mesmo nível de diferença lingüística pode estar associado com uma fronteira em um caso e não em outro, dependendo de fatores sociais. O essencial é que o objeto da descrição seja uma unidade social integral. Provavelmente, se tornará mais útil restringir a noção de comunidade de fala à unidade local mais especificamente caracterizada para uma pessoa a partir de localidade comum e interação primária (Gumperz, 1962, p. 30, 32). Tracei aqui distinções de dimensão e de tipo de articulação dentro do que Gumperz denominou comunidade linguística (qualquer grupo específico que se intercomunica). Descrições tornarão possível desenvolver uma tipologia útil e descobrir as causas e consequências de vários tipos. Situação de fala. Dentro de uma comunidade pode-se detectar prontamente muitas situações associadas com (ou marcadas pela ausência de) fala. Esses contextos de situação são frequentemente descritos como cerimônias, lutas, caçadas, refeições, ato sexual, e outros. Não seria vantajoso/produtivo converter esse tipo de situações em massa em partes de uma descrição sociolingüística pela simples reclassificação delas em termos de fala. (Note que as distinções feitas com relação à comunidade de fala não são idênticas aos conceitos de uma abordagem comunicativa geral, a qual deve atentar para o alcance/âmbito diferencial de comunicação por fala, filme, obra de arte, música.) Essas situações podem ser consideradas como contextos na afirmação/apresentação de regras de fala como aspectos do cenário/situação (ou do gênero). Em contraste com eventos de fala, elas não são governadas em si mesmas por essas regras, ou por um conjunto dessas regras, do início ao fim. Uma caçada, por exemplo, pode abranger tanto eventos verbais como não verbais, e os eventos verbais podem ser de mais de um tipo. Em uma descrição sociolingüística, então, é necessário lidar com atividades que são, de alguma forma reconhecida/evidente/identificável, vinculadas ou integradas. Do ponto de vista da descrição social geral elas podem ser registradas como cerimônias, pescarias, e outras; de perspectivas específicas elas podem ser consideradas como políticas, estéticas etc., situações que servem como contextos para a manifestação de atividade política, estética etc. Do ponto de vista sociolingüístico, elas podem ser consideradas situações de fala.

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